Comecei a escrever esta crônica às 09:39h da véspera de um importante clássico na casa do Tradicional Adversário, em um momento bastante difícil que o nosso Grêmio vive.
Vou contar a história de alguém que frequenta os clássicos desde 1981 e que estreou justamente em território oponente…
Eu tinha oito anos quando meu irmão Ricardo (14 anos mais velho), de surpresa, quase em cima da hora, me avisou que iria me levar ao Grenal do estádio José Pinheiro Borda. Na ocasião, já havia sido campeão brasileiro com grande assiduidade na nossa casa (só não havia comparecido à derrota de 1×0 para o Brasília na primeira fase e no jogo de maior público da história do Monumental, que foi a semifinal contra a Ponte Preta – uma outra derrota por 2×3, mas que nos deu Osvaldo campeão da América e do Mundo e que nos levou à final contra o São Paulo após uma aguerrida batalha no Moisés Lucarelli em Campinas – mas essa é uma outra história).
Aquele início de anos 1980’s foi traumático para nós: como eu tinha apenas quatro anos em 1977, infelizmente não possuo a menor lembrança do time experiente e escolhido a dedo pelo inesquecível vice de futebol Nelson Olmedo (um senhor que, hoje em dia, faz muita falta no comando do nosso vestiário) e pelo presidente que é um poço de sabedoria, um gremista atuante e que é emoção à flor da pele até hoje – Dr. Hélio Dourado. Mas lembro bem que, apesar de eu sequer ter sabido que o T.A. fora octacampeão gaúcho e tricampeão brasileiro na minha mais tenra idade, ainda assim sofria com as derrotas em clássicos pelo rádio.
Minha estreia no T.A. me mostrou um estádio todo vermelho e branco e sem cobertura. Grandioso, sim, de acústica impressionante, porém pouco simpático. Naquela época, apesar do retrospecto favorável a eles, o Grêmio já não se mixava mais e o Gauchão ainda possuía algum valor, pois não havíamos nos globalizado o suficiente, além dos valores que envolviam a formação de bons plantéis serem bastante módicos e em equilíbrio com a capacidade de investimento dos grandes do eixo Rio-São Paulo.
Fui na falsa geral – a deles. Ficamos atrás do gol cujas costas apontam para o Parque Marinha do Brasil, onde até hoje é reservado o espaço à torcida visitante. Tudo parecia estranho e desconhecido Porém, tive uma sensação inesperadamente boa: estava cercado por gremistas. Todos ali frequentavam o Olímpico Monumental e alguns raros eu conseguia identificar. Éramos um mero gueto encurralado, que entoava canções diferentes, que vestia o azul celeste, o branco e o preto. Que andava de listrado. Que torcia para um time muito mais especial do que o dos donos daquele estádio. Enfim… Gostei da sensação de fazer parte de uma minoria identificada por valores totalmente diferentes daquela imposição hegemônica à nossa volta.
De fato tínhamos um excelente time. Afinal de contas, havíamos sido campeões brasileiros dentro do Morumbi com aquela bucha do goleador Baltazar (que também mostrou tudo o que sabia na Seleção, no Flamengo e foi ídolo no Porto e no Atlético de Madrid), em um campeonato que nos revelou Paulo Roberto “Coelhinho” e que teve como ícones de experência e de craqueza o goleiro Leão (titular do Brasil nas Copas de 1974 e 1978), o meia Paulo Isidoro (que fez parte da inesquecível Seleção de 1982) e o eterno xerife Hugo De León (que, ao erguer a taça do Mundialito pelo Uruguai em janeiro de 81, mesmo antes de vir para o Grêmio, ergueu aquela taça com o nosso manto sagrado).
Porém, eles tinham um goelador vindo do Corinthians que, sabe-se lá por que, infelizmente teve passagem curta pelo Olímpico, apesar de ter feito vários gols: o perigosíssimo Geraldão, que até nome de cão pastor de torcedor colorado virou. Eles tinham ainda um zagueiro que, ainda menino, era um exemplo de qualidade técnica. No fundo, um gremista. Dese os 17 anos, um campeão nato. Quase ao final de sua longa carreira, nos deu uma Copa do Brasil. Falo de Mauro Galvão, então com 19 anos.
Perdemos naquela minha estreia no Beira-Rio. Para um menino de oito anos, aquela festa tornara-se dramática, pois vi dois gols de Geraldão e um de bicicleta de Mauro Galvão. Esse trauma inicial foi tão grande que, se eu não procuro pela ficha técnica daquele clássico, até hoje não consigo me lembrar de quem fez os gols tricolores naquele jogo. Só mesmo o Fábio Mundstock, o PVC da história tricolor, dotado de uma memória privilegiada e colecionador de um banco de dados frequentemente solicitado inclusive pelos plantões das rádios de Porto Alegre, pra me lembrar. Como estou com pressa e não quero interrompê-lo, deixo como lição de casa para os gremistas mais jovens.
Poucos anos depois, eu era um adolescente. Já ia sozinho ou com meus amigos quando o Pai não estava a fim de ir aos jogos. De 1985 a 1990, tive o priviégio de ter vivido uma fase áurea nos Grenais: hexacampeão gaúcho, com excelentes times – todos em plenas condições de ser campeões brasileiros que, ano após ano, chegaram bastante próximos disso.
Fui a todos os grenais no Olímpico e à maioria no Beira-Rio nessa memorável meia década de sucesso quase absoluto: Lima Alazão Puro-Sangue sonhava e marcava vários gols neles. O ponta-esquerda Jorge Veras aniquilava técnica e emocionalmente o lateral-direito da Seleção, Luís Carlos Winck – um verdadeiro freguês.
Pois é do José Pinheiro Borda que trago uma feliz recordação pra compensar a tristeza do meu início de carreira como visitante em clássicos: o ainda jovem porém muito experiente, carismático e ídolo Taffarel nos deu uma vitória sensacional em um Brasileirão (lição de casa 2: não lembro se foi em 1988, 1989 ou em 1990 – façam um esforço nesse final de férias escolares e aproveitem os estudos tricolores para irem bem na faculdade e no colégio, tá legal?
)…
Aquele, a quem todo gremista também admirava, apesar de termos o Lobão Mazaropi a nos tranquilizar e a pedir alento a todo instante. Um goleiro que havia nos dado a medalha de prata na Olimpíada de Seul, após pegar pênaltis na semifinal contra a base da Alemanha tricampeã mundial dois anos depois (Brehme, Häßler, Klinsmann…).
Bueno… O temível cearense Jorge Veras havia cruzado uma bola rasteira da ponta esquerda para ninguém. Gramado seco, um lance sem nenhuma pressão dos atacantes mosqueteiros sobre os zagueiros amorangados, uma bola fácil de encaixar.
De repente, tomado pela confiança em uma jogada corriqueira, o Alemão Taffa quis encaixar de leve, com um braço só, para já sair jogando. E foi daí que veio o maior pecado de sua carreira e o nosso deleite daquele final de domingo, cuja lembrança perdurou por anos a fio: a bola escapou de seu braço direito, a sua perna direita não amorteceu o cruzamento de Veras e a bola morreu mansinha no fundo das redes. Final, 1×0 Grêmio!
Todas as organizadas (ainda não existia a Geral e todas eram importantes, sendo uma única enorme, a Suer Raça Gremista; haviam ainda a Jovem, a Garra e a Máquina Tricolor) voltaram batucando em procissão pela Borges e entraram na José de Alencar para deixar seus instrumentos na sala que possuíam no Olímpico. Cantávamos todos felizes: “1, 2, 3, o Taffarel f… vocês!”
Antes de me tornar sócio e antes de me tornar um balzaquiano, tinha por hábito estar junto às organizadas, apesar de jamais ter-me filiado a alguma delas. Tanto no Olímpico como em território inimigo, era presença constante na arquibancada superior.
Pois hoje, depois de seis anos, voltarei a pisar em território inimigo. Hoje, voltarei a ir a um estádio na superior. Defendo que todo grande clube precisa necessariamente deixar um espaço sem cadeiras no anel superior à disposição de seus mais entusiasmados simpatizantes. Esse território de batalha hoje faz muita falta no Olímpico Monumental, pois é de cima para baixo que se faz volume, se intimida o adversário e a voz se faz ouvir com maior contundência.
Hoje, não sou mais eu, sozinho, com amigos que – digamos assim – “aburguesaram” e preferem ir nas cadeiras, além de pouco visitarem a casa amorangada e de até abandonarem o nosso TRICOLOR DOS PAMPAS, O EXÉRCITO DE FERRO COM A ALMA CASTELHANA, na ruim.
Pois apesar de Silas e Meira, quero, sem eira e nem beira, voltar de lá feliz. Qualquer frango me interessa. Qualquer expulsão deles me interessa. Qualquer irritação da torcida deles me interessa. Não quero que digam que vencemos o time misto deles. Afinal de contas, se é mesmo o melhor plantel do Brasil, não deveriam ser todos iguais, titulares e reservas?!
Um gol de bicicleta impedido de Ozéia me serve!
Hélio Paz
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